Irlanda – I

Introdução

“Eu sou um estuário no mar/ Eu sou uma onda no oceano/ Eu sou o som do mar/ Eu sou um poderoso touro/Eu sou um falcão no rochedo/ Eu sou um orvalho ao Sol/ Eu sou uma bela planta/ Eu sou um javali de valor/Eu sou um salmão na piscina/ Eu sou um lago na planície/ Eu sou a força da arte/” – Amhairghin –

Desde o final dos anos 60, católicos e protestantes mergulharam numa guerra civil na Irlanda do Norte, a antiga província do Ulster, ligada ao Reino Unido. Eles têm dilacerado a região, tornando-a palco do mais longo conflito da Europa do após-guerra. Até o acordo recente, intermediado pelo governo trabalhista de Tony Blair, registraram-se 30 anos de beligerância.

Para entender-se esse desacerto sangrento é necessário retroceder-se ao passado distante, não só da Irlanda do Norte mas de toda ilha da Irlanda. Um passado que nos leva a tempos bem mais longínquos quando a Irlanda tornou-se a primeira colonia da Inglaterra.

A Ocupação da Irlanda

A Irlanda, a Esmerald Island, uma ilha menor do Mar do Norte, situada logo ao oeste da Inglaterra – de quem se encontra separada pelo Mar da Irlanda e pelo canal de S.George -, foi, por séculos, o derradeiro recanto da cultura gaélica ou celta que antes abrangia a França e a Inglaterra de hoje. No século 5, ainda chamada de Hibernia, foi convertida ao cristianismo por S. Patrick. Entre os anos de 500 a 800 os monges irlandeses foram um esteio da civilização cristã não só desenvolvendo excelentes trabalhos como artesãos e copistas, entesourando a literatura religiosa cristã, mas igualmente como evangelistas. Muitos deles atuaram no Continente Europeu, como Columbanus que partiu da ilha em 590 com 12 companheiros para fundar conventos na Gália (atual França).

Politicamente, por aquele época, os irlandeses se divididam em várias tribos e em duas familias reais rivais, o que facilitou as sucessivas violações e saques perpetrados pelos invasores vinkings. Em 1175, o rei normando-inglês Henrique II Plantageneta determinou-se ocupá-la.

Desde então começou o martírio dos irlandeses. Durante os três primeiros séculos, os normando-ingleses limitaram-se a controlar Dublin e suas cercanias próximas, formando ali uma verdadeira fortaleza denominada de English Pale, a Paliçada Inglesa.

Até 1494 contavam com a colaboração de um família de condes, os FitzGerald, the Gerladines, que administravam como vice-reis o restante da ilha, fora da Paliçada. A partir de então o rei da Inglaterra optou pela presença direta de um seu representante, fazendo com que pela Lei Poyning, que durou até 1782, o parlamento irlandês, que já funcionava desde 1297, se subordinasse ao inglês. O controle mais ou menos frouxo da ilha foi substituído pela English Rule, pelo domínio direto.

A Reforma

As relações entre o governo inglês e os condes irlandeses deterioram-se a partir da Reforma Protestante. Em 1534 Henrique VIII da Inglaterra separou-se de Roma e tornou-se o chefe da igreja nacional: a Igreja Anglicana. O sentimento nacional irlandês, fortemente identificado com o catolicismo, reagiu contra o que consideravam uma heresia, isto é, romper com Roma. Foi este o pretexto que fez um dos condes, Lorde Offaly, rebelar-se contra o rei. Acabou executado em 1537, não sem antes tentar obter apoio no exterior junto ao papa.

Desde então a política irlandesa caracterizou-se por buscar sustentação externa para expulsar os ingleses: ora apelaram ao Papado, ora os espanhóis, bem depois aos franceses, e por último, na Iº Guerra Mundial, aos alemães.

Assegurando ainda mais o seu domínio, Henrique VIII fez aprovar a Lei da Cedência e Devolução na qual as terras irlandesas passavam a pertencer a ele, ao rei. Só as receberiam de volta os proprietários que jurassem fidelidade. Isto abriu caminho para a sua sistemática espoliação. A cada motim irlandês mais terras eram confiscadas, fazendo com que ao redor de 1700 só 14% delas estivessem com os católicos. Além de ameaçar-lhes com a desapropriação, a Irlanda foi submetida a uma verdadeira guerra econômica. Em 1571 a rainha Isabel I proibiu o seu comércio de lã , pois era rival do inglês. Bem mais tarde, outras medidas complementares atingiram o algodão e o tabaco. Apesar da sua fertilidade a ilha viu-se reduzida à pobreza crônica.

Não satisfeitos, os ingleses atacaram diretamente a cultura gaélica, proibindo sua língua e seus trajes. Foi um verdadeiro etnocídio. Forçaram ao exílio os artistas, os poetas e até os arpistas (a arpa é o simbolo nacional da Irlanda). Mesmo assim a Irlanda não parou de revoltar-se, tornando-se campo de luta da Reforma e da Contra-reforma

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