Irlanda – II

As Plantações e o terror Protestante

Para dar mais solidez à ocupação da ilha, a Inglaterra adotou a politica das plantations, das plantacões. Tratou-se de uma revivência da velha politica romana da colonização. Estimulou para tanto a vinda de escoceses (13 mil) e ingleses (7.500), de fé episcopal, presbiteriana ou puritana, facilitando-lhes a adquirição de campos. Naturalmente que arrancados aos irlandeses. Os protestantes que hoje habitam a Irlanda do Norte são descendentes desses imigrantes que chegaram nos finais do século 16 e princípios do 17. Como complemento, as antigas leis gaélicas, as Brehon Laws, foram derrogadas imperando desde então o direito inglês.

Quando deu-se a Guerra Civil de 1641-9 – a Revolução Puritana – entre o Rei Carlos I e o Parlamento liderado por Oliver Cromwell, os irlandeses trataram de aproveitar a confusão formando a Confederação de Kilkenny. Nela coligaram-se irlandeses gaélicos, normandos e membros do alto clero católico, liderados por Phelim O’Neill, reclamando a devolução das terras, contrapondo-se a Londres.

Vitorioso o Parlamento e executado o rei em 1649, Oliver Cromwell desembarcou em Dublin para suprimir-lhes a autonomia. Uma das razões da chegada do exército puritano,o New Model Army, era vingar uma chacina que vitimara milhares de protestantes no Condado de Ulster em 1641. A represália foi terrível. Foram perpretados dois massacres exemplares. O primeiro em Drogheda, em setembro de 1649, e o outro em Wexford, em outubro do mesmo ano. A Irlanda capitulou, sendo controlada por governadores-gerais ou comissários parlamentares ingleses.

Cromwell, por sua vez, ficou marcado na historia irlandeses como butcher, um “açougueiro” enquanto que novas plantações – as Cromwell plantations – foram distribuídas aos vencedores. Estas medidas faziam parte da politica de terra-arrasada e de terrorismo estatal adotadas pelos ingleses.

De certa forma os irlandeses conheceram um destino bem semelhante aos dos nativos americanos que, na mesma época, também estavam sendo espoliados da sua terras, privados da sua cultura e submetidos ao um estatuto jurídico próximo da servidão. Eles, os irlandeses, tornaram-se nos “indios-brancos” do colonialismo inglês.

As Leis Penais e a Ascendência Protestante

Meio século depois das atrocidades de Cromwell as últimas esperanças de uma autonomia foram-se com outra derrota, a da batalha de Kingale. No dia 12 de junho de 1690, nas margens do rio Boyne, enfrentaram-se os exércitos de Jaime, o recém-deposto rei católico da Inglaterra, e seu genro e inimigo, Guilherme de Orange, o Guilherme III da Inglaterra, o campeão do protestantismo.

Duas internacionais se enfrentaram: a católica com 21 mil soldados e a protestante com 35 mil. Com a derrota dos católicos a Irlanda desesperançou-se. Os ingleses de ascendência protestante, fizeram o Parlamento irlandês aprovar as chamadas Penal Laws, as Leis Penais, que praticamente tornaram o catolicismo um crime.

Os “papistas” não podiam portar armas, herdar terras de protestantes ou arrendá-las ou hipotecá-las por um prazo superior a 31 anos ou casar com protestantes. Vedavam-lhes ter suas próprias escolas, bem como enviar seus filhos ao estrangeiro. Só seriam tolerados membros do baixo clero, porque pelo Decreto de Expulsão de 1697 todos os bispos e demais integrantes do alto clero foram expulsos da Irlanda. Estas leis somente foram revistas parcialmente em 1793 e abolidas em 1828.

Desde então, da década de 1690, o governo da Irlanda caiu inteiramente sob o controle da Ascendência Protestante cujos integrantes perfaziam mais ou menos 25% da população.

Para comemorar esta histórica vitória os protestantes da Ordem de Orange, fundada em 1795, realizam todos os anos na Irlanda do Norte uma série de marchas cívicas que começam no dia 12 de julho , data da vitória de Boyne estendendo-se até 12 de agosto, quando registra-se o levantamento do cerco católico sobre Londonderry. Atualmente estas marchas por atravessarem bairros ou regiões católicas têm sido uma fonte constante de violências.

A guerra aberta contra a educação dos irlandeses gerou um fato curioso. Proibidos de falar e expressar-se em gaélico, os irlandeses terminaram por contribuir para que nascesse em seu solo 4 dos maiores escritores da língua inglesa: Johnathan Swift, autor das “Viagens de Guliver”(1726); George Bernard Shaw , Prêmio Nobel de 1925 e maior teatrologo da Inglaterra , autor de “Pigmalião” (1912); William B. Yeats, Prêmio Nobel de 1923, autor do livro de poemas “A Tôrre” (1928), e James Joyce autor de “Ulisses”(1922), tido como novela emblemática do modernismo literário.

A Revolta de 1798

“Quem teme falar sobre o ‘98’?/ Quem se enrubesce ao escutar-lhe o nome quando covardes debocham do destino dos patriotas, que foram pendurados em vergonha?/ Eles todos são velhacos, ou meio-escravos. São os que desprezam o seu país”. – Poema patriótico irlandês sobre o levante de 1798

O nacionalismo irlandês teve que esperar pela Revolução Americana de 1776 e pela Francesa de 1789 para estrutura-se numa frente em comum de intelectuais que unisse numa organização secular católicos e protestantes episcopais (que também eram discriminados). A nova organização laica – claramente inspirada nos jacobinos franceses – chamou-se United Irishmen, os Irlandeses Unidos, e teve Wolfe Tone como seu líder. Em 30 de março de 1798, contando com auxilio francês eles sublevaram a província de Leister, obtendo a adesão de 100 mil dos seus compatriotas, mas a ação dos britânicos logo os deteve. As tropas do lord Cornwallis fizeram 30 mil vitimas numa insurreição que durou 4 meses. Os castigos impostos aos sobreviventes foram terríveis. Sentenças de 500 a 999 chibatadas se tornaram comuns. Wolfe foi executado não sem antes de declarar suas esperanças numa Irlanda livre.

O fracasso de mais uma insurreição fez com que os irlandeses, durante o século 19 apostassem mais numa política de mobilização e pressão junto ao Parlamento, que os ingleses haviam unificado em 1801, combinado-as com muita agitação social, como correu com o movimento Repeal of Union, rejeitando a união, de Daniel O’ Connell, entre 1835-40.

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