Irlanda – III

A Grande Fome: a tragédia do século

Os poucos proprietários ( da Ascendência Protestante) arrendavam as suas terras para uma imensa massa de camponeses pobres que usavam os seus lotes para plantar e colher batatas. O numero de intermediários entre o proprietário e o lavrador era tamanho que, por vezes, chegava a dez. Eles, os lavradores, viviam miseravelmente em choças de barro de uma só peça e mal colhiam para alimentar-se por 30 semanas. Nas restantes 22 suas mulheres eram postas a mendigar. Numa população estimada em 8 milhões, 27% eram indigêntes. Uma das leis de terras mais cruéis e injustas dizia que o proprietário podia expulsar o lavrador se um dos arrendatários não pagasse a sua parte ao dono. Nem a chegada de agricultores ingleses lhes melhorava a situação. Ao invés de serem portadores de uma cultura superior, brutalizavam os habitantes com sua exploração.

Foi neste quadro de pobreza quase que absoluta que, para piorar-lhes a desgraça, deu-se a praga da batata. A partir de 1845 um fungo maligno iniciou sua devastação. Durante os cinco anos seguintes, atingindo seu climax nos anos de 1847/8, ele estendeu-se pelas lavouras da ilha.

Os moradores desesperados passaram a escavar alucinadamente o solo em busca de uma raiz ou o ramo qualquer que lhes aplacasse a fome. Em pouco tempo os campos da Irlanda, um dos mais férteis da Europa, viram-se inutilmente revirados pelos ancinhos, pás e mãos de uma multidão enlouquecida pela fome.

Os proprietários alegando falta de pagamento dos arrendamento determinaram por expulsá-los em massa. Mas o pior como sempre partiu do governo inglês. Um carregamento de grãos vindo da Índia não pôde ser vendido abaixo do preço convencional porque os lideres ingleses não permitiram. Alegaram, dentro do espirito da doutrina liberal, que isto afetaria a lei dos preços que regulava o mercado de cereais.

Pode-se cogitar que as autoridades inglesas, inconscientemente, cometeram um genocídio contra o povo da Irlanda, pois calcula-se que a Grande Fome matou de pauperismo e doença um milhão de agricultores e seus familiares.

As cenas rurais eram impressionantes. Um jornalista registrou que em quase todos os lugares visitados deparou-se com “crawling skeletons, who appear to have risen from the graves”, esqueletos ambulantes arrastando-se para fora das sepulturas, num cenário de pauperismo fantasmagórico. Para o historiador Charles Kingsley eles pareciam-se a intimidadores “chimpanzés humanos” espalhados por centenas de milhas “daquela terra horrível”.

A solução para milhares deles foi embarcar para a América e outras partes do Império. Foram salvos pela imigração, não pela solidariedade. Na entrada dos anos de 1850 a população reduzira-se para 5 milhões. Durante os vinte anos seguintes a Irlanda prostrada emudeceu em luto pela tragédia coletiva.

A Luta pelo Home Rule

“A maioria das corporificações físicas do nosso passado são ruinas, do mesmo modo que a maioria das nossas canções são canções de lamento e desafio.” – Sean O‘Faolain

Arrasados pela fome, as lideranças iralandesas só retomaram a luta nos finais dos anos 60 do século 19. E, como sempre, esta assumiu duas vertentes. Uma preocupada com a agitação e luta parlamentar encabeçada, entre 1879-82, por Charles Steward Parnell, que assumiu o protesto contra a opressão dos latifundiários, no episódio chamado de The Land War, a guerra das terras. Enquanto que a outra enveredou para a luta armada, clandestina, proposta pelos The Fenians, os Fenianos, de James Stephans, a partir de 1863. Eles emergiram aproveitando-se do clima da Guerra Civil americana, mas foram esmagados dois anos depois. Seus lideres cumpriram longas penas, enquanto outros foram degredados ou enforcados.

A resistência idômita dos irlandeses levou a um dos estadistas ingleses a exasperação. Escrevendo à rainha Vitória, o ministro Disraeli salientou que “esta raça selvagem, estouvada, indolente, incerta e supersticiosa não tem simpatia pelo caráter inglês. Seu ideal de felicidade humana é uma alternância de cozidos clânicos com aberrante idolatria. A historia deles descreve um ciclo inquebrável de fanatismo e sanguinarismo.”

A partir da ascensão de William E. Gladstone, um ministro liberal, o governo inglês deu alguns passos, em 1867 e 1870, no sentido de estabelecer algum tipo de autonomia para a Irlanda. No entanto as propostas de encaminhamento da autonomia foram rejeitadas pelo Parlamento de Londres em 1886 e, novamente, em 1893.

Quando eclodiu a Guerra de 1914, o governo inglês, com aceitação das lideranças irlandesas mais moderadas, suspendeu os trâmites para o Home Rule. Novamente os irlandeses viram-se convocados para lutar em guerras que não eram as suas, retomando o seu infeliz destino de, como versou William Yeats, “Guerrear a quem não odiavam e proteger a quem não amavam”.

Mas como ocorrera em outros momentos da história, sempre que a Inglaterra envolvia-se em dificuldades, abria-se uma brecha para que os irlandeses se insurgissem. Na Primeira Guerra não foi diferente. Em 1916, um grupo de militantes do Irish Republican Brotherhood, a Irmandade Republicana Irlandesa (precursora do IRA) determinou-se por um levante em Dublin. Liderados por Patrick Pearse, lançaram-se numa aventura espetacular e suicida. Em abril daquele ano, no chamado Easter Rising, o Levante da Páscoa, os voluntários do IRB ocuparam vários pontos estratégicos da capital e proclamaram a República Irlandesa.

Os ingleses enviaram tropas de combate e rapidamente os isolaram. Presos todos eles, uns 3 mil ao todo, viram seus líderes (16 homens) serem fuzilados na Prisão de Kilmainhan. Apesar do levante não ter contado com apoio popular, seus efeitos se fizeram sentir. Dada a repercursão negativa das execuções os ingleses perceberam que seu domínio sobre a ilha se eclipsava.

O Sinn Féin e o IRA

Dois dos rebeldes foram poupados: Michael Collins, o futuro fundador do IRA (Irish Republican Army), e Eamon De Valera, o emancipador , ministro e depois presidente da Irlanda. Seu novo instrumento politico de luta foi o Sinn Féin (“Nós Sozinhos”), um combativo partido nacionalista e republicano que ganhará maioria das votaçõe em 1918 acelerando a independência.

Libertados por uma anistia ao fim do conflito mundial, ambos trataram de provocar uma guerra sem quartel contra o domínio inglês, não sem antes fazerem com que o braço armado do Sinn Féin, os pistoleiros do IRA – “Os Doze Apóstolos” – travem uma luta intermitente contra os agentes britânicos.

Michael Collins recorre à ações espetaculares, aos atentados e emboscadas guerrilheiras. A lei marcial é imposta à Irlanda. Forças especiais a serviço dos ingleses desembarcam para um tudo o nada, entre elas os Blacks and Tans, Os Negros e Castanhos (Denominação da tropa de choque formada por irlandeses convocados na Inglaterra para reprimirem as agitações nacionalistas em Dublin e no resto da Irlanda, entre 1919-21) Em represália a morte de 14 oficiais ingleses os Blacks and Tans entraram num estádio de futebol no Croke Park de Dublin e atiram sobre multidão, matando 12 e ferindo centenas de espectadores. Este episódio, ocorrido em 21 de novembro de 1920 ficou conhecido como Bloody Sunday, o domingo sangrento.

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